
06/09/08 21:02
O
parto de uma Nação
Por Luis Nassif
É
extraordinário o que estamos testemunhando nesses tempos de Satiagraha:
é o parto de uma Nação.
Haverá
ainda muita frustração pela frente, muita sensação de impotência, muito ceticismo
se o país conseguirá ser alçado à condição de Nação civilizada. Mas a marcha da
história é inevitável.
Está-se
em plena batalha da legalidade contra o crime organizado. Os jovens juízes,
procuradores, policiais que ousaram arrostar décadas de promiscuidade estão no
jogo. Se eventualmente forem calados agora, a decepção geral será o combustível
para a reação de amanhã.
O
país está submetido a duas forças que caminharam em paralelo
mas, agora, começam a colidir.
Uma
delas, a consolidação de valores republicanos – não necessariamente de práticas
- como a impessoalidade no trato da coisa pública, a transparência cada vez
maior, movimento acelerado pelo advento de novas tecnologias de informação, a
reação contra a impunidade.
Ao
mesmo tempo, tem-se um país institucionalmente refém de desequilíbrios enormes.
A falta de transparência do ciclo que se esgota abriu espaço para amplos abusos
em todos os poderes – Executivo, Legislativo, Judiciário e mídia, grande
capital.
Criou-se
uma enorme Nação de rabo preso em um momento em que a disseminação de valores e
de tecnologia definia novos níveis para a transparência.
Ao
mesmo tempo, o mundo (e o Brasil) ingressou em um ciclo de financeirização
que permitiu a expansão ampla do crime organizado. Descrevo em detalhes esse
processo no meu livro “Os Cabeças de Planilha”. Já
tinha descrito esse modelo no meu “O Jornalismo dos anos 90”, no capítulo
referente à CPI dos Precatórios.
A
falta de regulação e controle nos mercados, a existência de paraísos fiscais, a
complacência das autoridades reguladoras (e da mídia) criaram uma imensa zona
cinzenta onde se misturou a contravenção fiscal com a corrupção política, a
simbiose de “figuras notáveis” com o crime organizado. A falta de um regramento
adequado e de instituições que combatessem os abusos,
permitiu essa promiscuidade ampla.
Esse
é o nó.
Agora,
as instituições estão aí. Mas há um pesado passivo que não interessa a muitos
que venha à tona. O resultado dessa batalha de transição é que definirá os
rumos do país: se submetido aos limites da lei; ou do crime organizado.
Os novos atores
Aí
entram dois atores. O primeiro, a mídia.
Já
escrevi várias vezes sobre o tema, e volto a ele. Nesse ambiente promíscuo,
parte da mídia passou a se valer da denúncia não como um instrumento de
melhoria dos hábitos econômicos e políticos, mas como instrumento seletivo de
poder. O esgarçamento dos critérios jornalísticos
abriu espaço para os abusos que, agora, chegam a um ponto de alto risco para
imagem da mídia.
Nesse
movimento, papel essencial foi desempenhado pela diretoria de redação da Veja.
Graças ao seu amadorismo, conduzindo uma operação de alto risco – os pactos com
Daniel Dantas - escancarou um modelo que, em mãos mais hábeis, levaria mais
tempo para ser percebido.
O
segundo ator são os órgãos de repressão ao crime organizado, que surgem no
início dos anos 90 e se consolidam a partir da gestão Márcio Thomaz Bastos no
Ministério da Justiça.
A
maior parte do dinheiro do crime organizado transita pelo mercado financeiro,
através de operações esquenta-esfria, de doleiros, de esquemas em paraísos
fiscais, um universo intrincado que passa ao largo da compreensão do cidadão
comum.
Tenho
muito orgulho em ter contribuído de alguma maneira para preparar esse terreno
para o combate ao crime organizado.
No
início dos anos 90 passei análises sobre o mercado financeiro para o juiz
Walter Maierovitch, o primeiro brasileiro a estudar
seriamente o fenômeno do crime organizado.
No
início de 2003, a convite de Márcio Thomaz Bastos dei uma das duas palestras de
abertura do Seminário que ocorreu em Pirinópolis,
juntando Ministério Público Federal, Polícia Federal, COAF, Banco Central,
Secretaria da Receita Federal. Juntei as informações e análises que tinha
coletado na cobertura da CPI dos Precatórios e dos esquemas de doleiros – que
serviram de base para meu livro.
Surpreendi-me
ao me dar conta da extensão do trabalho que se propunha,
essa integração necessária entre os diversos órgãos, a busca de ferramentas de
análise, de equipamentos de monitoração, o entusiasmo dos jovens funcionários
públicos e as figuras mais velhas, respeitáveis, de Cláudio Fontelles,
Paulo Lacerda e Márcio Thomaz Bastos.
Montou-se
a organização, preparam-se os funcionários públicos e lhes foi conferida uma
missão. E eles passaram a seguir o manual. Institucionalizava-se o combate ao
crime organizado. E, institucionalizado, passava a se tornar, também,
impessoal. Assim como em nações civilizadas, não havia mais intocáveis a serem
preservados.
Nesse
momento, deu-se o choque com o Brasil velho.
O choque do antigo
No
início havia convivência estreita entre os dois poderes: a nova estrutura de
repressão ao crime organizado e a mídia.
Houve
muitos abusos, sim, invasão de escritórios de advocacia, vazamento de peças do
inquérito. É possível que abusos continuem a ser cometidos. Mas tudo era
suportado, defendido pela mídia, na condição de aliada preferencial, tendo
acesso aos “furos” e blindagem contra abusos.
A
convivência prosseguiu enquanto órgãos de mídia entendiam que a aliança lhes
garantia salvo-conduto. Explodiu quando se revelou a extensão da Operação Satiagraha.
Aparentemente,
a Operação Satiagraha flagrou quatro grupos
envolvidos com o crime organizado: advogados, juízes, políticos e
jornalistas/empresas jornalísticas. O que se pretende, agora? Julga-se ser
possível varrer o processo para baixo do tapete? Em plena era da Internet, dos
blogs, dos sites, do e-mail, julga-se ser possível passar em branco
essa monumental manipulação das informações que se vê agora?
O
jogo está no fim. Daqui para diante será esperneio. Continuarão assassinando
reputações, promovendo factóides, manipulando ênfases. É possível que destruam
Paulo Lacerda, Protógenes, De Sanctis
e todos os que ousarem enfrentar esse tsunami. Mas não conseguirão parar a
história.
Desse
lamaçal, vai emergir uma nova mídia, uma reavaliação na qual os jornais sérios
entenderão, em algum momento, que não dá mais para se envolver até o pescoço
por uma solidariedade corporativista com os que transigiram.
E
não adianta tentar transformar essa guerra em um Fla
x Flu, Lula x oposição, PSDB x PT. Não cola. É uma
briga da lei contra o crime organizado. Há que se definir limites
para evitar abusos. Mas o que está em jogo é a tentativa de desmonte dessa
estrutura.
Apostar
que serão bem sucedidos, será apostar no atraso, na falta de leis, na
manutenção dos abusos da mídia e dos grampos ilegais, no império do crime
organizado, na promiscuidade entre poderes.
É
esse o país que vamos entregar para nossos filhos? É evidente que não.