Anexo à segunda edição
do
666 O
Outro Cristo
de Clara Dufresne
Sobre a Origem do Verbo em Kmt
Jesus
de Nazaré estava consciente de suas três atribuições:
Seu assassinato pelos líderes hebreus dá testemunho
de ser o Messias – aquele que queria libertar seu povo de seus erros - e seria rejeitado.
.
Sua perfeição de caráter em vida humana,dá testemunho
de ser o Filho do Homem – Hr encarnado em Pr-Aha - Pr-Aha com sua natureza humana e divina coexistindo na mesma pessoa.
Seus sinais tendo autoridade sobre a realidade
material inclusive, sempre como fruto de seu Verbo – de seu coração através de
sua palavra --, testificam sua divindade como encarnação do Verbo de Deus.
Já
mostrei numa nota, que o Homem sai da boca da Esfinge no céu – como fruto do
Verbo da Esfinge -, e foi isso o que viram e perceberam no céu os primeiros humanos que surgiram na África em tempos
remotos, pelo menos uns 42000 anos atrás, desde o sul, desde a Núbia.
Mas
existem dados ainda mais impressionantes sobre o Verbo em Kmt.
Na
XXV Dinastia, por volta de 716-702AC (712-698AC possivelmente), surgiu um
Pr-Aha de nome Nfr-Ka-Ra (Neferkara), que ficou conhecido por sua origem Núbia,
como Shabaka.
Assim
ele ficou conhecido como o Pr-Aha
Shabaka.
Nfr-Ka-Ra
Shabaka reinou no Alto e no Baixo Egito.
A
seguir ilustramos com uma imagem gravada em pedra em um templo em Tebas, Nfr-Ka-Ra Shabaka fazendo uma oferta aos Ntrw nesse mesmo templo em Tebas.

Em
1805, um cidadão chamado Earl Spencer, presenteou o Museu Britânico com uma
pedra muito pesada, de um basalto muito escuro, que depois foi reconhecida como
a Pedra de Shabaka, pois segundo suas próprias inscrições fora mandada preparar
por esse Pr-Aha.

Essa
pedra, infelizmente, depois do tempo em que recebeu inscrições por ordem do
Pr-Aha Shabaka, por muito tempo foi usada como pedra de moinho. Foi bastante
danificada, e muito de suas inscrições foram eliminadas pela abrasão por ter
sido usada de forma tão inconveniente. Mas o Sr. Spencer a achou, percebeu as
inscrições e a encaminhou ao museu.
No
museu a pedra ficou praticamente ignorada por mais de cem anos, quando enfim
alguns poucos se dignaram analisá-la melhor, e podemos ver o que ela continha
em inscrições antigas:

Na
parte central perfurada e usada como pedra de moinho nada sobrou, mas nas
bordas e na parte superior as inscrições ainda são muito bem perceptíveis.
No
alto, encontramos 2 linhas de hieróglifos, - linhas [1] e [2] e depois,
encontramos o que seriam 62 colunas de hieróglifos – colunas [3] a [64].
Normalmente os hieróglifos mostram em que sentido devem ser lidos, pelo lado em
que as figuras se apresentam. Por exemplo se os pássaros olham para a direita,
deve-se ler à partir da direita, ou seja, os símbolos nos mostram a partir de
que ponto devemos ler.
A
primeira linha –[1]- é toda voltada para o centro, ou seja, é um título
simétrico ou quase simétrico. Portanto lê-se à partir do centro para os dois
lados.
A
segunda linha –[2]- lê-se da esquerda para a direita, pois os símbolos indicam
essa direção.
Os
símbolos das colunas –[3] a [64]- olham para a direita, ou seja, normalmente
dever-se-ia ler as colunas da direita para a esquerda no sentido de cima para
baixo.
Mas
a leitura nesse sentido não fazia sentido.
Descobriu-se
que no caso, dever-se-ia ler ao contrário, ou seja, da esquerda para a direita
e de cima para baixo. Porque essa inversão? Ninguém sabe.
Essa
“estela” foi lida pela primeira vez no princípio do século XX, e à partir daí,
sem muita ênfase, alguns estudos foram feitos.
Na
primeira linha, no título da estela, encontrou-se o “cartucho” do faraó
Nefer-Ka-Ra, conhecido como Shabaka da XXV Dinastia.
Nosso
estudo aqui se baseia no trabalho de Wim van den Dungen, que entre 2001 e 2004
trabalhou na transcrição e interpretação do texto e verteu as inscrições para o
inglês. As transcrições em hieróglifos apresentadas também são dele – ele diligentemente
as copiou em visitas ao Museu Britânico.
A
versão aproximada em português, - com base no trabalho exaustivo de van den
Dungen - das duas primeiras linhas horizontais, diz o seguinte:
[1] Hr vivente: das duas terras; as duas senhoras:
das duas terras; o Hr de ouro: das duas terras; Rei do Alto e do Baixo Egito:
Nfr-Ka-Ra, o Filho de Ra, (Shabaka), o amado de Ptah – ao- sul do- Muro, que
vive como Ra para sempre.
///
Essa primeira linha nada mais é que a identificação do faraó, como os faraós se
identificavam, mostrando quem ele era. Todo faraó se identificava com Hr, assim
o faraó se identifica como Hr vivente. Essa identificação é essencialmente
litúrgica. Depois ele se identifica como Senhor das Duas Terras; como Senhor
das Duas Senhoras – o abutre fêmea e a serpente – ; depois como Hr de ouro – um
nome especial que era dado a cada Pr-Aha, e enfim como Filho de Ra. Todo faraó
recebia vários nomes (cinco nomes), que eram usados em diferentes momentos e em
diferentes cerimônias. Este faraó tem o nome principal de Nfr-Ka-Ra ou
Neferkara - seu nome de entronamento como Senhor do Alto e do Baixo Egito, o
nome da coroação. O nome de Filho de Ra, era o nome mais usado no dia a dia, e
o dele era Shabaka. Portanto Shabaka e Nfr-Ka-Ra são a mesma pessoa.
[2] O que aqui está escrito foi
copiado por Sua Majestade na Casa de seu Pai Ptah – ao- sul-do-Muro, porque Sua
Majestade encontrou um escrito dos ancestrais que estava sendo comido de
vermes, que assim não podia ser compreendido inteiramente, do princípio ao fim.
Sua Majestade o copiou de tal forma que o escrito ficou melhor do que
anteriormente, de forma que seu nome permaneça e que seu monumento permaneça na
Casa de seu Pai Ptah-ao-sul-do-Muro por toda eternidade, como um trabalho feito
pelo Filho de Ra (Shabaka) para seu Pai Ptah-Tenen, para que ele viva para
sempre.
///
O faraó Shabaka relata que encontrou no templo de Ptah em Pe (Menfis), o local
sagrado da coroação de todo Pr-Aha, um papiro antigo que estava semi-destruído
por traças ou “vermes”, e que percebendo a importância do documento mandou
inscrevê-lo em pedra, como uma estela, em basalto, e que esta estela fosse
guardada no templo de Ptah. Assim ele preservaria a estela e o escrito para a
posteridade, em seu nome e em nome de Ptah.
Vemos
então que a mensagem que ele encontrou escrita no pergaminho que estava sendo
comido pelos vermes, está nas 62 colunas de hieróglifos, em parte destruídas
pelo mau uso da estela de pedra, com o tempo.
As
5 primeiras colunas, lidas da esquerda para a direita, dizem o seguinte:
[3] Ele é
Ptah, conhecido pelo grande nome: Tenen
[4] Ele
que uniu esta terra do Sul como Rei do Alto Egito e esta terra do Delta como
Rei do Baixo Egito.
[5] (linha
vazia)
[6] Ele
deu origem a Twm, que deu origem à Eneade
/// Nessas cinco primeiras colunas se identifica de
quem e do que se está tratando: da ação e da pessoa de Ptah, também conhecido
como Ptah-Tenen, o Ntr Ptah.Tenen é o nome da matéria que sai do Caos original.
Depois veremos mais sobre o Caos original e o que significa. Logo nos primeiros
capítulos deste trabalho procurei mostrar quem é Twm, o Ntr Twm, como aquele
que intrinsecamente condiciona o desenvolvimento do nosso Universo, conhecido
como um número – número como entidade e não como mera quantidade - na realidade
um sistema harmônico de desenvolvimento caracterizado por uma entidade numérica
com características próprias. Assim o texto explica que Ptah deu origem a Twm,
ou seja, Ptah fez com que o universo se desenvolvesse conforme o
condicionamento da harmonia de Twm. Dessa forma surge a “Eneade”, ou os 9 Ntrw
que regem o tempo – entraremos em maiores detalhes sobre a Eneade depois. Vimos
como a terra e o céu são regidos por harmonias de forma cíclica. O exemplo que
sempre damos é o ciclo anual das estações, que pelo movimento relativo da Terra
com o Sol, faz com que a intensidade e a declividade da luz solar que incide
sobre nós mude, gerando assim a floração na primavera e a queda das folhas no
outono, por exemplo. Da mesma forma, outros ciclos mais amplos foram percebidos
em Kmt, como o da precessão dos equinócios, um ciclo de uns 26000 anos para que
se tenha uma circunvolução completa de toda a eclíptica – com suas 12
constelações do zodíaco – pelo movimento oscilatório do eixo da Terra. Em Kmt
se sabia que como no ano a declividade afetava a luminosidade e a luminosidade
afetava a vida, assim também este ciclo maior afetava a vida, e viram ao longo
de milênios as relações entre a precessão dos equinócios no céu e a “regência”
de nove Ntrw (a Eneade) na terra. Essa Eneade tem origem em Twm (f) que tem origem
em Ptah.
As
colunas seguintes:
[7] Geb
comandou que a Eneade se juntasse a ele. Ele julgou entre Hr e Sth;
[8] ele
pôs um fim a sua animosidade. Ele instalou Sth como Rei do Alto Egito na terra
do Alto Egito, no lugar onde ele nasceu, em Sw. E Geb fez Hr Rei do Baixo
Egito, no lugar onde seu Pai foi afogado
[9] o que
consiste a “divisão das duas terras”. Assim Hr ficou em uma região e Sth em
outra região. Eles fizeram a paz entre as duas terras em Ayan. Essa foi a
divisão das duas terras.
/// Geb é a Terra (Ntr Terra) e também faz parte da
Eneade. Ele é o Pai de Wsr, Seth, Isis e Nephthys. Wsr é o Pai de Hr. Vemos que
a luta de Hr com Sth é mítica, ancestral. Mas como a Eneade reflete as
regências na terra, ela também se mostrará na história. A luminosidade da
primavera também é ancestral – a Terra gira em torno do Sol há bilhões de anos
-, e também se torna história a cada primavera. Como vimos ao longo deste
trabalho, ao se designar como Filho do Homem, Jesus de Nazaré se identifica
como Hr. No Evangelho de João ele diz que tem inimigos antigos entre os
hebreus, - quando diz em João 10, que “Todos os que vieram antes de mim eram
ladrões e salteadores” - e em Mateus ele diz que teria depois um outro inimigo,
um homem inimigo plantador de joio – no meio do trigo que era o seu Verbo, a
Palavra que saía por sua boca como o fruto de seu coração. No Apocalipse ele
chama o inimigo antigo como dragão e o homem inimigo novo como a besta que sai
do mar. Esses inimigos de Hr, o Filho do Homem, consistem NA HISTÓRIA a personificação de Sth (na liturgia).
Continuando:
[10a]
Geb diz a Sth: “Vá para o lugar onde
você nasceu”
[10b] Sth
responde: O Alto Egito.
[11a] Geb
diz a Hr: “Vá para o lugar onde seu Pai foi afogado”
[11b] Hr
responde: O Baixo Egito.
[12a]
Palavras de Geb para Hr e Sth: “Eu os separei”
[12b] Alto
e Baixo Egito
[10c, 11c,
12c] Então pareceu errado a Geb que a porção de Hr fosse igual à porção de Sth.
Então Geb deu a Hr sua herança, por que ele é o filho de seu primogênito.
[13a, 13b]
Geb fala à Eneade: “Eu escolhi Hr, o primogênito”
[14a, 14b]
Geb fala à Eneade: “ Apenas a ele, Hr, a herança”
[15a, 15b]
Geb fala à Eneade: “ Para seu herdeiro, Hr, minha herança”
[16a] Geb
fala à Eneade: “Para o filho de meu
filho,...
[16b]
Hr, o Chacal do Alto Egito...
[17a, 17b]
Geb fala à Eneade: “ O primogênito, Hr, Aquele que abre os caminhos”
[18a] Geb
fala à Eneade: “ O filho que nasceu ...
[18b] Hr,
no aniversário Daquele que abre os caminhos”
/// Vemos aqui que começa um diálogo entre Geb – a
Terra – a terra separada do Céu – a terra que Jesus de Nazaré dizia que queria
que fosse assim na terra como no céu – Geb que é a terra, que havia separado Hr
e Sth que têm em si uma semente de inimizade ancestral – como a primavera traz
em si a semente ancestral da floração e da renovação – divide as autonomias de
Hr e Sth... mas depois decide dar a herança da terra apenas a Hr.
Quando Jesus de Nazaré se identifica como Hr, como
o Filho do Homem, em outras palavras ele está entre outras coisas reivindicando
a si mesmo a sua herança da terra. Por isso ele pode dizer... bem aventurados
os mansos porque herdarão a terra - ele, o manso e humilde de coração herdou a
terra – herança prometida por Geb, a própria terra. Porque Geb dá a herança a
Hr, e não a Sth, nem divide a herança? Porque Hr é o Filho do Homem, o
primogênito de Wsr. Wsr é filho de Geb, O HOMEM É FILHO DA TERRA.
Simbolicamente Wsr é o Ntr que significa o homem, e Hr é o Ntr que é o Filho do
Homem. Ele recebe da terra a herança dela mesma. Ao que tudo indica, Geb ao
explicar algo sobre Sth, chamando-o de Chacal do Alto Egito - pelo mau uso da
pedra, as palavras se perderam e não podemos ter a complementação da frase. Por
outro lado Hr é Aquele que abre os caminhos. Jesus diz depois que ele é o Caminho.
Jesus, sendo protegido pelo Egito, vivendo no Egito, se reconheceu no Egito e
percebeu que o Egito era onde se falava dele e de sua herança. Ele foi como um
bebê necessitado de socorro para o Egito - e voltou com a certeza de ser Hr, o
Filho do Homem.
Continuando:
[13c, 14c] Então Hr se
colocou na terra, ele é o unificador da terra,
proclamado em Tanen-ao-sul-deste-Muro, Senhor da Eternidade. Então
germinaram em sua cabeça os dois Grandes em Magia. Ele é Hr, coroado Rei do Alto
e do Baixo Egito, que une as duas terras no Muro Branco, no local onde as duas
terras se unem.
[15c,
16c] O Junco (planta
emblemática do Alto Egito – nota minha) e o
papiro (planta emblemática do Baixo Egito) foram colocados na porta dupla da Casa de Ptah.
Isso significa: Hr e Sth, pacificados e unidos. Eles confraternizam e assim
acaba a disputa, onde quer que estejam, unidos na Casa de Ptah, que “Equilibra
as duas terras”, em quem Alto e Baixo Egito foram pesados. Essa é a terra...
/// Hr personifica Pr-Aha, o Senhor das duas
terras, ou o Senhor da Dualidade. Na história essa dualidade se mostra nas duas
terras do Alto e do Baixo Egito, onde surgiu a ancestralidade humana. Somos
fruto do passado, de nossa ancestralidade, a nossa história ancestral é nossa
genética. Somos fruto da história de nosso passado, e no presente plantamos a
história de nosso futuro, como humanidade. Hr personifica Pr-Aha, o Filho do
Homem, o Filho de Wsr. Assim Jesus de Nazaré se identificava, porque assim se
via e se percebia. Ele é coroado Pr-Aha, o Filho do Homem, o Ntr e Homem ao
mesmo tempo em essência, em Tanen-ao-sul-do-Muro. O Muro Branco, construído por
Menes, na I Dinastia. Um Muro, um Lugar com um significado
escatológico/mítico/místico/litúrgico muito importante. Ali eram coroados todos
Pr-Aha do reino unificado, como foi
coroado Hr. Ao lado de Pe – ou Menfis – cidade da Casa de Ptah. Jesus hoje é
Pr-Aha como Hr vivente, MAS O REINO NÃO FOI UNIFICADO AINDA. Ainda não vemos na
terra como no céu. A luta e Hr e Sth está em pleno vigor.
Continuando:
[17c] ....
o enterro de Wsr na Casa de Swkar.
[18c, 19]
Isis e Nephthys sem demora, porque Wsr se afogava na água. Isis (e Nephthys)
viram. .... ele se afogando...
[20ªa] Hr
fala a Isis e Nephthys: “Corram, peguem-no ... “
[21a] Isis
e Nephthys falam a Wsr: “Chegamos, vamos pegá-lo ...”
[20b, 21b,
22] ... e o trouxeram para .... a terra
na fortaleza real, ao Norte de ...
[23] Lá
foi construída a fortaleza real ...
[24a] Geb
fala a Tehuti: ...
[25ab –
30a] ...
[31a –
35a] ...
[27b] Geb
fala para Isis: ...
[28b] Isis
faz com que (Hr e Sth) venham.
[29b] Isis
fala a Hr e Sth: “ ...”
[30b] Isis
fala a Hr e Sth: “façam a paz ...”
[31b] Isis
fala a Hr e Sth: “ A vida será agradável para você quando... “
[32b] Isis
fala a Hr e Sth: “ é ele quem seca suas lágrimas... “
[33b –
35b] Isis fala a ...
[36 – 47]
/// O texto está tão danificado nessa parte da
pedra que nada pode-se depreender completamente. Percebe-se que Isis, Nephthys,
Hr e Sth tratam da história de Wsr e das conseqüências dessa história – a
origem ancestral da inimizade visceral de Hr e de Sth . (sugiro a leitura de
“De Iside e de Osiride” de Plutarco – um volume de sua “Moralia” – para que se
conheça melhor essa história)
Assim
termina o relato do lado esquerdo da estela de Shabaka. Ao lado direito
encontramos o que podemos considerar propriamente dita a Teologia de Ptah ou a
Teologia de Pe, ou de Menfis – onde vemos o que significa o Verbo de Deus e a
origem dessa forma de se expressar o Princípio. Depois um dia João escreverá no
seu Evangelho: “No princípio era o Verbo... e o Verbo estava com Deus, e o
Verbo era Deus...”
[48] Os
Ntrw que se manifestam em Ptah:
[49a]
Ptah-sobre-o Grande-Trono, ...
[49b]
(Ptah) ... que deu origem aos Ntrw.
/// Aqui nós vemos a menção da Unidade na
Diversidade. Ptah que é Único, nele se manifesta a pluralidade de manifestações
como Ntrw. Os Ntrw tiveram sua origem em Deus, porque estavam já fazendo parte
da essência de Deus. Assim eles se manifestam em Deus, como uma manifestação de
Deus, sem alterar a Unidade desse Deus. Essa Unidade na Diversidade é mostrada
por Jesus como a Unidade numa Trindade, porque a Trindade implica na
Diversidade.
[50a]
Ptah-Nun, o Pai que deu origem a Twm.
/// nós vimos exaustivamente que Twm (f) significa uma
harmonia que condiciona o desenvolvimento em nosso universo. Essa harmonia
criadora e geradora, ao mesmo tempo condicionadora do real, desenvolvida como
Twm, tem sua origem em Ptah como Pai de Twm. Twm é a forma, Ptah a essência que
produz a forma. Mas aqui Ptah é reconhecido como Ptah-Nun. Nun é o Caos
primordial, o Caos ancestral. Hoje em dia muito se fala, em física, em
matemática e em toda ciência de Caos Determinístico e em “teoria do Caos”. É o mesmo
caos. Caos é tudo o que “a partir da divergência de um ponto inicial, ainda não
é mas pode vir a ser”. Como potência. Um sistema caótico e determinístico é um
sistema onde – de forma ordenada e não aleatória – uma série de coisas, à
partir de um mesmo início, ou praticamente e um mesmo início, pode acontecer.
Não sabemos quando nem onde, nem mesmo como vai acontecer, mas sabemos que pode
acontecer, e quando acontecer acontecerá segundo uma ordem pré-determinada de
possibilidades. Assim é o Caos como Nun. Um universo poderia acontecer. Como,
quando e exatamente como ele se concretizaria? Não poderíamos saber, MAS PODERÍAMOS
SABER QUE PODERIA ACONTECER. Por causa do Caos de Nun. Desse Caos, em dado
momento, por algum motivo e de certa
forma – deixando de ser Caos como possibilidade – mas como algo que passa a ser
e existir – como Tenen - tem sua origem em Ptah-Nun – através da forma de Twm.
[50b]
(Ptah) ... que deu origem aos Ntrw.
[51a]
Ptah-Naunet, a Mãe que deu à luz Twm;
/// Naunet é o lado feminino do Caos, de Nun – se
Ptah-Nun é o Pai de Twm, Ptah-Naunet é a Mãe de Twm.
[51b]
(Ptah) ... (que deu origem aos Ntrw);
[52a]
Ptah-o-Grande , coração e língua da Eneade;
/// A partir daqui poderemos começar a compreender
o Verbo que era no princípio, do qual João fala no seu Evangelho e no
Apocalipse que um dia virá montado num cavalo branco, - que virá fazer Justiça
(Maat), com seu nome, Verbo de Deus escrito na coxa, e que no leito de morte João
explicou melhor no seu Evangelho. Ptah o Grande é CORAÇÃO E LÍNGUA. Ele sente e pensa com o coração, e
age através da língua. O Verbo é o coração de Deus expresso como palavra. O
Verbo que manifesta pela língua o que guarda o coração. Jesus repetiu
exatamente isso. A boca fala do que está cheio o coração.O Verbo então é o
resultado, como Palavra de Deus, do coração e da fala de Deus. Se Deus não
sentisse e não pensasse em seu coração, não falaria. E se não falasse, se não
se manifestasse, nada existiria.
[52b]
(Ptah) ... Nfr-Tm diante da face (literalmente do nariz) de Ra cada dia;
[53]
Surgiu no coração; Veio à língua, como a imagem de Twm! Ptah é o Grande que dá
a vida a todos Ntrw. Pelo seu coração e pela sua língua (pelo Verbo)
[54] Hr
veio à existência nele; Twth veio à existência nele, como Ptah. O Poder surgiu
no coração e pelo Verbo e em todos os membros, de acordo com o ensinamento que
está em todo coração, em todos os corpos, e a língua está na boca de todos os
Ntrw, de todos os homens, de todo gado, de tudo o que rasteja, e em tudo o que
tem vida; pensando com o coração e ordenando pelo Verbo!
/// O Verbo de Deus cria a vida – vida em Kmt
significa existência. O Verbo de Deus gera a existência. Como criação do
universo, e como criação de nossa consciência.
Quando vemos a realidade material e como ela se desenvolve; quando vemos
a vida na natureza e como ela se desenvolve, então percebemos que a progressão
harmônica condicionante de Twm atua na materialidade do universo. Neste sentido
então Ptah como o Pai de Twm, ele se identifica com o Pai de Jesus de Nazaré,
pois Jesus demonstrava um poder e autoridade também sobre a materialidade do
universo, transformando água em vinho com sua Palavra de autoridade. O Verbo,
que se formava no coração de Jesus e fluía por sua palavra como uma semente –
seu trigo. Jesus atuava na matéria pelo Verbo. Suas curas, sua ação sobre a
tempestade, seu controle sobre o mar, mudando água em vinho, multiplicando pães
e peixes, ressuscitando Lázaro, curando enfermos, cegos, surdos e mudos,
portadores de deficiência, ele fazia como Ptah, como Hr: pelo coração e pela
palavra. Ele percebia, sentia em seu coração, falava e acontecia, na
materialidade do universo. Por outro lado, também podemos compreender o
desenvolvimento da história, não só humana, mas do universo. O Verbo atua e
transforma a história, pelo crescimento de nossa consciência. Portanto, num e
noutro sentido, o Verbo de Deus atua criando e transformando, primeiro em Ptah,
o Pai – pelo desejo de seu coração e pela emissão de sua palavra -, através do
condicionamento de Twm. Depois pelo Filho do Homem, Hr, a quem foi dada em
herança a terra, o habitat do homem. Ambos, pelo Verbo – pelo coração que se
manifesta pela palavra -, demonstram a mais absoluta autoridade sobre tudo e
sobre todos. “Passará o céu e a terra, mas minhas palavras não hão de passar”.
Como o coração e as palavras de Seu Pai, Ptah-Tenen, jamais passarão.
[55] A
Eneade de Ptah está diante dele como coração, como ordenança, dentes e sêmen,
como os lábios e as mãos de Twm. A Eneade de Twm surge pelo seu sêmen, e por
seus dedos. Certamente a Eneade de Ptah, são como os dentes e aos lábios na
boca, proclamando os nomes das coisas, como Shu e Tefnut surgiram nele e
[56] que
deu origem à Eneade de Ptah. A vista dos olhos, o ouvir dos ouvidos, e o respirar o ar do nariz, eles transmitem
para o coração, o que faz com que surja toda decisão. Assim, a língua repete o
que está no coração. Assim tiveram origem todos os Ntrw. A Eneade de Ptah se
completou. Toda Palavra do Ntr surgiu através dos pensamentos no
[57]
coração e com o comando do Verbo. Assim toda a capacidade de perceber e
testemunhar foi criada e todas as qualidades determinadas, aqueles que fazem
todas as comidas e provisões, pelo Verbo
. Justiça é feita sobre os que fazem
coisas amáveis, e punição para aquele que faz o que é odioso. Assim a vida é
dada aos que promovem a paz, e morte aos criminosos. Assim foram criados os
trabalhos, as habilidades, a ação dos braços e o mover das pernas.
/// A Eneade de Ptah e a Eneade de Twm. A Eneade de
Ptah é a Eneade desejada por seu coração, e depois tornada real por seu Verbo.
Que Eneade é essa:
1.Ptah
2.Shu e Tefnut
3.Geb e Nut
4. Wser e Isis; Sth e Nephthys
Mas Ptah gera a Eneade, então ele está além dela.
Em seu lugar, Ptah coloca Hr como seu herdeiro.
Essa mesma Eneade é a Eneade de Twm. A diferença é
que em Ptah ela começa no coração e se realiza pelo Verbo. Em Twm ela começa
com a semente e se realiza pelos dedos, pelas mãos. Mas sem o coração de Ptah
não haveria o Verbo; assim como se não houvesse o Verbo não haveria a semente.
E sem a semente não haveria universo nem vida.
Jesus diz a mesma coisa, exatamente. De seu coração
sai sua palavra. Sua palavra se faz semente – que ele chama de trigo – que dará
seu fruto, pelo trabalho das mãos de seus seguidores. Como Ptah, como Twm. Como
o Pai, como o Espírito Santo.
No seu coração Ptah gerou Shu e Tefnut – Shu o
espaço e Tefnut a umidade/materialidade no espaço.
Da união de Shu e Tefnut nasceram Geb – a terra – e
Nut – o céu.
Da união de Geb e Nut nasceram Wsr e Isis – o Homem
e a Mulher – Seth e Nephthys – o Adversário/Inimigo do Homem e a Amiga da
Mulher.
Da união de Wsr e Isis nasce Hr, o Filho do Homem e
o Herdeiro de Ptah – como o Verbo de
Ptah – ele encarnará em si o Céu e a Terra, e terá em si a Palavra da Verdade
(Twth-Maat).
Essa Eneade tem então vários significados
dependendo do contexto e do ponto de vista.
Do ponto de vista do correr da história, conforme
mostram a Pedra de Palermo e o Papiro Real de Turim, a Eneade governa a
terra numa seqüência dinâmica de
regências de períodos precessionais de tempo, que dizem respeito à renovação e
desenvolvimento da história do universo, do planeta e do homem. Na escala
considerada em Kmt, de dezenas de milhares de anos, os governos são do homem,
já que para o universo e mesmo para o planeta a escala teria de ser outra,
medida em milhões ou bilhões de anos – como já vimos nos Yugas indianos
conhecidos no Hindus-Saraswati – uma escala global dos Yugas cosmológicos para
o planeta e para o universo - e uma de
Manvantaras para o homem:
Ptah – Twm (inicio de tomada de consciência) a uns
40-50 mil anos atrás;
Shu
Geb
Wsr
Sth
Hr
Twth
Maat
Hr
Com o
segundo período de Hr, termina o reinado dos Ntrw segundo a Pedra de Palermo e
o Papiro Real de Turim. Inicia-se um período de regência dos Shemsw-Hr - seguidores de Hr -, por umas 5 precessões –
pouco mais de 12 mil anos -, e o ciclo recomeça.
Ptah-Twm
Shu
Geb – a cerca de uns 6/7000 anos AC, quando
politicamente se dividiram as terras
entre Norte e Sul.
Wsr começa a cerca de 4000 anos AC a reger – quando
tem início o reinado humano – Pr-Aha passa a reinar diretamente da terra, como
Ntr e como Homem.
Sth começa a reinar aproximadamente em 2000 AC –
quando os ”pastores asiáticos” “migram”
para Kmt... e depois querem dominar como hiksos primeiro, militarmente, e
depois como a heresia amarniana, como um câncer internalizado.
Hr – na nossa era de Peixes – Jesus de Nazaré como
Hr, que luta com Sth pela humanidade, como pelo corpo de Wsr, seu Pai (a luta
do Cristo contra o dragão e as duas bestas do Apocalipse).
Twth reinará no Aquário – a ciência e a sabedoria
Maat a Justiça reinará no Capricórnio
Hr voltará a reinar, depois de Maat, e então o seu
reino será deste mundo – se o homem não inviabilizar sua vida neste mundo –
quando pelo menos um remanescente seguirá Hr.
Isso se o planeta – pela ação da segunda lei da
termodinâmica – suportar nossas interferências sobre ele -,
que independem do desenvolvimento moral da história humana – mas dependem de
nossa superpopulação e de afetarmos inapelavelmente o frágil sistema ecológico
no qual existimos – a Terra é uma realidade finita – e limitada em seus
recursos.
[58] Os
movimentos de todos os membros, de acordo com o Verbo que tem origem no coração
e surge pela língua, tudo é criado. Assim surgiu o ditado de que Twm, que criou
os Ntrw, disse sobre Ptah-Tenen :” Ele como um Pai deu origem aos Ntrw! ” Dele
tudo veio a luz: alimentos, provisões,
[59]
ofertas, todas as coisas boas. Então Twth entendeu e escreveu que ele é o
Grande Deus. E assim Ptah ficou satisfeito depois de ele ter criado todas as
coisas através de seu Verbo. Ele deu
vida aos Ntrw, ele fez cidades, ele estabeleceu as terras, ele colocou os Ntrw
em seus santuários,
[60] Ele
estabeleceu suas oferendas, ele
estabeleceu seus santuários, ele fez seus corpos de acordo com a vontade deles.
Então os Ntrw tomaram corpo em todas as formas de madeira, em todo tipo de
pedra, em toda qualidade de barro, em tudo o que cresce ele,
[61] de
acprdo com o que vieram a ser. Assim todos os Ntrw, e seus Ka’s (seus
significados) se juntaram a ele,
felizes com o Senhor das Duas Terras. O Grande Trono que alegra o coração dos Ntrw na Casa de Ptah
é a fonte de sustento de toda a vida, através do qual o sustento das Duas
Terras se mantém,
[62]
porque Wsr foi afogado em suas águas. Isis e Nephthys correram ajudá-lo. Hr
logo mandou Isis e Nephthys pegar Wsr e impedir que ele afundasse.
[63] Elas
acorreram a tempo e o levaram para a terra. Ele adentrou os portais secretos na
glória dos Senhores da Eternidade, seguindo os passos daquele que se levanta no
horizonte, no caminho de Ra para o Grande Trono.
[64] Ele adentrou no palácio onde se
juntou aos Ntrw de Ptah-Tenen, Senhor dos Anos. Assim Wsr veio para a terra,
para a Fortaleza Real, ao Norte da terra na qual ele havia ido.Seu filho Hr
levantou-se como Rei do Alto Egito, levantou-se como Rei do Baixo Egito, no
abraço de seu pai Wsr e dos Ntw em fronte dele e por detrás dele.
Mostramos
em seguida a transcrição legível da esquerda para a direita em linhas
horizontais, das colunas centrais da Teologia de Ptah, da coluna [53] à coluna
[60] – também um trabalho de Dungen.

Mostramos
a seguir outra transcrição de Dungen, mas copiando como no original da Estela
de Shabaka, a parte das colunas referentes à parte central da Teologia de Ptah
([53] a [60]), mas com o acréscimo de partes das duas linhas primeiras
horizontais correspondentes. Note-se que Dungen inverte a face das figuras de
lado em algumas colunas, se comparadas com o original apresentado na página a
seguir

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Nota1: Heródoto,
o historiador grego, escreveu sobre Pr-Aha Shabaka, mas não toca na Pedra de
Shabaka. Ele conta sobre o final do reinado de Shabaka em Kmt, que foi o que
me impressionou, no capítulo CXXXIX do livro II de sua “Historia”: “O Egito,
segundo os sacerdotes (sacerdotes
amigos de Heródoto e dos gregos- nota minha) libertou-se do domínio de Shabaka de maneira calma e inesperada.
Certa noite, o usurpador (ele chama Shabaka de usurpador – por ser núbio e não grego? – nota
minha) viu ou pareceu ver em sonhos um
homem que o aconselhava a reunir todos os sacerdotes do Egito e cortá-los em
duas partes. Refletindo sobre essa visão, pareceu-lhe discernir naquilo um
pretexto dos Ntrw para fazê-lo violar o respeito devido às coisas sagradas,
acarretando-lhe um castigo da parte dos próprios Ntrw ou dos homens. Resolveu
não fazer o que lhe sugerira a visão, julgando mais prudente retirar-se do
país, tanto mais que já havia decorrido o período em que devia reinar no
Egito. Segundo a previsão dos oráculos etíopes que ele consultara quando se
achava na Etiópia, deveria reinar no Egito durante cinqüenta anos. Como esse
tempo já havia expirado, e ante a estranha visão que o deixara perturbado,
decidiu retirar-se voluntariamente do país” Impressionante!
Parece que Shabaka recebeu a expressa orientação de ir reinar no Egito, para recuperar o papiro de Ptah, e
preservá-lo para a posteridade numa pedra de basalto, que mesmo depois de carcomida
pois usada como pedra de moinho, e depois mesmo esquecida nos porões do Museu
Britânico, um dia viria a luz e esclareceria um mistério escondido sobre o
Verbo de Deus, que um dia se fez carne, e habitou entre nós... há já uns dois
mil anos atrás! Pensem
nisso... os atos de Pr-Aha Nfr-Ka-Ra Shabaka repercutem na história, mais de
2700 anos depois, de forma decisiva... Nota2: Numa nota sobre o Verbo,
mostramos que o que os nossos ancestrais viram na Núbia, a uns 42000 anos
atrás ou mais, foi a Esfinge no céu, e da boca da esfinge, como o produto de
seu Verbo, o Homem como Wsr. Mas
existe mais um detalhe que queremos mostrar aqui: De onde sai, aos olhos dos
ancestrais, a Esfinge? Ela toda noite
surge lentamente (durante milhares de anos quando aparecia pela precessão a
Esfinge no céu – que desaparecia totalmente durante milhares de anos, e de
repente começava a surgir de novo...). Como emergindo do horizonte no céu
noturno, como o Sol faz durante o dia. Daí
duas considerações: A
analogia da Esfinge com o Sol, e principalmente,
pela forma como ela surge no céu, ela surge como que emergindo do Caos – Nun
– primordial. Assim
existe, é imanente, a analogia entre Ptah-Nun/Esfinge/Ra, o que também
explica a Unidade na Diversidade em Kmt. O
Verbo criador, O que estava em Princípio com Deus e que é Deus, é o Verbo
percebido pela boca da Esfinge, que é o mesmo Verbo que surge no coração de
Ptah e se mostra pela palavra de Ptah, que é como o Verbo que se forma no
coração de Jesus e se mostra como a palavra de Jesus... transformando o real...
como a palavra de Ptah-Nun gera Twm que gera o real... Coração
–> Palavra = Verbo que se torna Semente -> que gera e transforma o
real. Quando
o Coração é o de Deus. Ou que está em uníssono com Ele. Como estava o coração
de Pr-Aha Jesus. Mais sobre o Assunto: ---Herodoto : História, Ediouro 1985. ---Hare, T. : Remembering Osiris, Stanford University Press -
Stanford, 1999, p.172.
Baseamos nossa versão simplificada das inscrições na Estela de Shabaka, no estudo aprofundado desenvolvido e publicado por Wim van den Dungen |